Escolher vinhos na Holanda quando se vem de França torna-se bastante complicado. No mais ridículo (e nojento) supermercado parisiense há dez prateleiras de vinho enfiadas à força em qualquer espaço. Há vinho ao lado da prateleira do leite. E como só há vinho francês e "vinho francês é sempre bom", compra-se o vinho de dois euros. Não há uva aristocrata francesa que resista à crise ou aos estudantes. "Vinho francês é sempre bom", ponto. Há que alimentar o mito.
É em França que se bebe mais vinho. Todos os dias, ao descer os cinco andares de madeira e em caracol do meu prédio de mais de cem anos, me cruzo com pelo menos cinco garrafas de tinto vazias. Uma por andar, todas quietas, sozinhas, cada uma com a sua história, cada uma no seu lugar. Desenganem-se os que se insurgem contra as sopas de cavalo cansado a partir dos três anos em Portugal. É em França que se bebe mais vinho.
Já na Holanda, a experiência é outra. Numa prateleira tímida, alinham-se meia dúzia de vinhos caros. Mas a noite pedia um verdadeiro aristocrata. A escolha foi então para o "Sauvignon Blanc de Bordeaux da Argentina!". Um aristocrata viajado. E fotogénico! Era mais barato assim.
Não foi um sucesso. Os sabores, como os cheiros ou os sons, têm o dom de nos fazer viajar. Mas o ser humano não pode estar em dois sítios diferentes ao mesmo tempo! O vinho da Argentina é bom. O de Bordeaux também. Mas Sauvignon de Bordeaux da Argentina é capaz de ser exagerar. Quem tudo quer... fica a marinar. Com um bocado de carne de vaca, alho, sal, pimenta e colorau.
5 comentários:
Olá, Aparecida! Tanto tempo com a outra foto que isto já parecia um banlieu. Essa das garrafas à porta só pode servir para troca com o leiteiro. Espero que o prédio tenha 6 andares, pelo menos, e que tu mores no 6º. De qualquer maneira o tempo há-de ensinar-te que não há vinho mau. Há pessoas com mau vinho mas vinho mau é coisa que não existe. Só temos três qualidades do dito - o bom, o muito bom e o óptimo. Se soubesse o que sei hoje, tinha-te mandado uma garrafita do Napoleão... em vez dos chocolates! ∑:=)
O que eu vejo, Ana, é que as prateleiras dos mercados franceses dão boas lições de patriotismo e saber comercial. Que as nossas abundam em produtos de importação, embora na questão dos vinhos também não desdenhemos os nossos. In vinus virtus, ou veritas, é universal, afinal. Mas fartas-te de passear, quel bonheur! Bom regresso e continua a falar das tuas experiências internacionais. Um bj.
regressada! talvez se eu tivesse eu frança conseguisse passar a gostar de vinho. de modo a evitar a exclusão social, tas a ver?
tenho imensas saudades tuas, ó!
hahaha. isso não me parece nada bom. um vinho com muitas misturas =)
Margarida:
Agora que estás de férias in love na Holanda, sempre poderias blogar um pouquinho pr'á malta se divertir. É que este 2009 não tem sido nada produtivo online.
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